
Eu e Flávio Almeida escrevemos este artigo contemplando um de nossos temas de pesquisa: eficiência energética no setor de transportes. Confira o artigo na íntegra.
Em 2018, o setor de transportes passou a ser o maior responsável pelo consumo de energia no Brasil, alcançando (32,7%) do consumo total de energia, na frente do setor industrial (31,7%), segundo dados do Balanço Energético Nacional 2019. Na última década, enquanto o setor industrial apresentou crescimento médio negativo (-0,1% a.a.), o setor de transportes foi o que mais cresceu (3,1% a.a.), atrás apenas do setor comercial (3,2% a.a.), alcançando 83,7 milhões de tep (toneladas equivalentes de petróleo).
No mundo, a participação dos transportes no consumo de energia também é preponderante tendo em vista que o crescimento econômico de um país está frequentemente relacionado com o aumento da demanda por deslocamento de pessoas e cargas. Por este motivo, o aumento da eficiência energética neste setor é primordial para que esta demanda seja atendida com menos consumo de combustíveis, reduzindo os impactos na economia e no meio ambiente.
Quando se trata da eficiência energética no segmento de passageiros, em especial, é muito comum que o foco das atenções seja dado à eficiência veicular, ou à tecnologia de motorização. No entanto, os potenciais ganhos de eficiência energética são muito superiores quando consideramos este tema de forma mais abrangente, integrando, por exemplo, os diversos modos de transporte, o planejamento urbano e as telecomunicações. Esta abordagem pode ser realizada considerando-se três eixos principais da eficiência energética no transporte de passageiros: melhorar, mudar e evitar/reduzir.
No que tange a mobilidade urbana, quanto se evita ou reduz a necessidade de deslocamento, há ganhos de eficiência sistêmica. A eficiência sistêmica vem sendo impulsionada, por exemplo, por tecnologias de comunicação que possibilitam o acesso a serviços e produtos sem a necessidade de deslocamento, como o caso do ensino a distância, do home office e das compras de supermercado pela internet. A forma como as atividades econômicas e sociais estão distribuídas espacialmente dentro das cidades também pode resultar em viagens mais curtas, que podem vir a ser realizadas por outras formas de deslocamento como, por exemplo, patinetes elétricos ou mesmo a pé. Cidades mais densas, tendem a apresentar maior eficiência sistêmica ao viabilizar o transporte público de massa.
A mudança de um modo menos eficiente, como os automóveis ou motocicletas, para modos mais eficientes, como os ônibus ou trens, é outro eixo de promoção da eficiência energética denominado mudar que vem sendo estimulado nas grandes cidades do mundo, propiciando ainda ganhos sociais e ambientais em sua maior parte não contabilizados. A crescente conectividade entre pessoas e veículos, aliada aos serviços proporcionados por aplicativos de celular que informam melhores rotas, condições do tráfego, possibilidades de caronas e de intermodalidade também pode impactar significativamente a eficiência energética das viagens, além de proporcionar redução do tempo dispendido nestes deslocamentos, dentre outros recursos.
No que tange às novas configurações de mobilidade como o compartilhamento de veículos e o hire hailing (UBER, 99, Cabify etc), não há necessariamente uma relação direta com a redução do consumo de energia no setor, mas sim a transferência da posse do veículo para o seu uso. Há incertezas sobre como a provável redução da posse de veículos por pessoas físicas possa impactar na quilometragem média viajada por pessoa e, portanto, no consumo de energia em determinada localidade.
O eixo da eficiência energética denominado melhorar tem como foco o aumento do rendimento dos veículos. Neste quesito, diversos governos no mundo vêm adotando políticas em prol da incorporação de tecnologias que aumentem o rendimento de veículos, nomeadamente de veículos leves. Dentre estas políticas, as metas de eficiência energética ou redução de emissões de CO2 por quilometro viajado aplicada às montadoras em vários países deverão trazer impactos na demanda por combustíveis pela frota mundial nas próximas décadas. A eletrificação veicular, neste contexto, tem sido a aposta de muitas montadoras para alcançar estas metas em conjunto com outras tendências que reforçam a adoção desta tecnologia, como o aumento da autonomia veicular e do uso do car sharing. O aumento do rendimento também é influenciado pelas condições de trânsito, condições das vias e estradas, e condução dos veículos. A adoção de vias prioritárias para os ônibus dentro das cidades, por exemplo, tais como o BRT (Bus Rapid Transit) e o BRS (Bus Rapid System) possibilitam reduzir o desperdício de energia associado ao estilo de deslocamento “anda e para”, típico nos congestionamentos.
Esta visão abrangente da eficiência energética no setor de passageiros possibilita que cada um dos eixos apresentados possa ser aplicado de forma integrada. O automóvel elétrico, por exemplo, traz ganhos significativos de eficiência energética e zera a emissão de poluentes locais, mas reproduz os impactos negativos de congestionamentos associados aos automóveis à combustão interna. Quando esta tecnologia, no entanto, vem acompanhada de políticas que priorizem o uso do transporte coletivo dentro das cidades, o objetivo de apropriação democrática do solo urbano é preservado e os ganhos de eficiência energética são ampliados.
Portanto, a eficiência energética deve ser vista como um instrumento de política pública que promove não apenas o uso mais racional dos recursos energéticos, mas também é capaz de conciliar ganhos sociais e ambientais em prol do desenvolvimento sustentável.